O QUE MUDA EM NÓS QUANDO MIGRAMOS?

Descrição do post.Quando uma pessoa migra, ela não atravessa apenas uma fronteira geográfica. Ela também se distancia, temporária ou permanentemente, de pessoas, lugares, referências, hábitos, comidas, formas de se relacionar e de uma série de elementos que, muitas vezes, participavam da construção de sua sensação de familiaridade e pertencimento.

Natália Reis

10/1/2026

O QUE MUDA EM NÓS QUANDO MIGRAMOS?

Quando uma pessoa migra, ela não atravessa apenas uma fronteira geográfica. Ela também se distancia, temporária ou permanentemente, de pessoas, lugares, referências, hábitos, comidas, formas de se relacionar e de uma série de elementos que, muitas vezes, participavam da construção de sua sensação de familiaridade e pertencimento.

Algumas dessas mudanças são bastante visíveis. É preciso aprender uma nova língua, compreender outros códigos sociais, lidar com novas formas de trabalho, reorganizar a vida cotidiana e, muitas vezes, construir novas redes de relacionamento. Outras são menos evidentes, mas também podem produzir efeitos importantes sobre a experiência de quem migra.

Uma pessoa pode deixar para trás uma carreira construída durante anos e ocupar, no país de acolhida, uma posição profissional muito diferente daquela que tinha antes. Pode perceber que sua formação e suas qualificações não são reconhecidas da mesma maneira. Pode descobrir que, antes de ser reconhecida por sua profissão, sua história ou sua trajetória, será reconhecida como estrangeira.

Por isso, talvez seja insuficiente compreender a migração apenas a partir da ideia de “adaptação”.

Adaptar-se a quê? E, principalmente, quem precisa se adaptar a quem?

Quando pensamos que a responsabilidade pela adaptação está exclusivamente sobre a pessoa que migrou, corremos o risco de transformar em problema individual aquilo que também é produzido pelas condições do contexto em que essa pessoa passa a viver.

As políticas migratórias, as desigualdades econômicas, o racismo, a xenofobia, as condições de trabalho, o acesso à documentação, aos serviços e a possibilidade de construir vínculos fazem parte dessa experiência. Não são elementos externos à vida da pessoa migrante. Eles interferem concretamente nas possibilidades de construir uma vida no novo país.

Isso também significa que duas pessoas que migram para o mesmo país podem viver experiências muito diferentes. A migração não acontece da mesma maneira para todas as pessoas, porque os marcadores sociais que atravessam suas vidas também participam dessa experiência.

Raça, gênero, sexualidade, classe social, escolaridade, profissão, nacionalidade, condição documental e outros aspectos podem influenciar a forma como uma pessoa é percebida e tratada no país de acolhida e, consequentemente, as possibilidades que ela terá de construir sua vida nesse novo contexto.

Mas migrar também não significa deixar tudo para trás.

A pessoa leva consigo sua história, seus afetos, sua cultura, sua língua, suas crenças e os diferentes elementos que participaram da construção de sua subjetividade. No entanto, esses elementos podem passar a ser percebidos de outra maneira no novo contexto.

Aquilo que antes parecia simplesmente “quem eu sou” pode passar a ser nomeado, questionado ou até desvalorizado pelo olhar do outro. Uma forma de falar, de se vestir, de expressar uma crença ou de se relacionar pode adquirir outro significado quando inserida em um contexto cultural diferente.

É nesse movimento que a experiência migratória também pode envolver uma renegociação da própria identidade e do próprio pertencimento.

Não necessariamente porque a pessoa deixou de ser quem era, mas porque algumas das referências que antes ajudavam a organizar sua experiência já não funcionam exatamente da mesma maneira. Ao mesmo tempo em que aprende a existir em um novo contexto, ela também pode precisar compreender como será vista, reconhecida e posicionada nesse lugar.

Por isso, falar em reconstrução talvez seja mais adequado do que falar simplesmente em adaptação.

Construir uma vida em um país diferente envolve aprender novas formas de existir sem que isso signifique, necessariamente, abandonar aquilo que veio antes. Pode envolver incorporar novos códigos, estabelecer novos vínculos e construir novas referências, enquanto se tenta preservar aspectos importantes da própria história.

Esse processo pode ser especialmente complexo quando a pessoa percebe que aquilo que considerava parte de sua identidade passa a ser interpretado de maneira diferente no novo contexto.

Uma mulher negra brasileira, por exemplo, pode experimentar sua negritude de maneiras diferentes ao longo da migração. A forma como é racializada, os estereótipos que recaem sobre ela, os espaços que ocupa e as relações que estabelece podem mudar de acordo com o país e com o contexto social em que passa a viver.

Isso mostra que identidade e pertencimento não são experiências completamente isoladas do contexto. Elas também são construídas na relação com o outro e com os lugares que ocupamos.

E é justamente por isso que compreender o sofrimento relacionado à migração exige mais do que olhar apenas para o indivíduo.

Uma pessoa pode estar vivendo ansiedade, tristeza, solidão, insegurança ou sensação de não pertencimento. Mas compreender essas experiências não significa imediatamente transformá-las em uma questão exclusivamente individual ou em um problema de adaptação.

É preciso perguntar também o que está acontecendo ao redor dessa pessoa.

Como estão suas condições de trabalho? Ela consegue acessar os serviços de que precisa? Sua documentação está regularizada? Consegue estabelecer vínculos? Está vivenciando discriminação? Sua formação é reconhecida? Como sua raça, gênero, sexualidade ou nacionalidade estão sendo percebidos nesse novo contexto?

Essas perguntas não retiram a singularidade da experiência de quem migra. Pelo contrário. Elas permitem compreender essa singularidade de maneira mais ampla.

Na psicoterapia, isso significa acompanhar a pessoa não apenas em suas dificuldades individuais, mas também na complexidade de construir uma vida entre diferentes referências culturais, sociais e afetivas.

Significa compreender que o sofrimento pode ser vivido individualmente sem necessariamente ser produzido apenas individualmente.

Por isso, talvez a pergunta não seja somente “como essa pessoa está se adaptando ao novo país?”, mas também:

O que está acontecendo com essa pessoa enquanto ela tenta construir uma vida em um lugar onde as referências que conhecia já não funcionam da mesma maneira?

Migrar não é apenas atravessar uma fronteira. É, muitas vezes, reconstruir referências, renegociar pertencimentos e descobrir como continuar sendo quem se é enquanto se aprende a existir em um contexto que pode responder a essa pessoa de uma maneira completamente diferente.

Referências bibliográficas

FANTINEL, Fernanda de Andrade. Do Brasil à Dinamarca: percepções de identidade na experiência de mulheres brasileiras migrantes. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, v. 33, e332128, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-858525038800033208.

PUSSETTI, Chiara. Identidades em crise: imigrantes, emoções e saúde mental em Portugal. Saúde e Sociedade, v. 19, n. 1, p. 94-113, 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-12902010000100008.

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